Antiguidade Africana e seu Legado no Brasil, pós aula

A aula do dia 22 de outubro teve como temática principal a História e Cultura Africana, e foi ministrada pela cientista social e diretora do IPEAFRO Elisa Larkin Nascimento, viúva do renomado poeta, ator, ativista social e fundador do Teatro Experimental do Negro, Abdias do Nascimento. Como ponto inicial, foi apresentada uma linha cronológica que tinha início 4.500 anos a.C. e chegava aos dias de hoje. Nela, vimos como os povos africanos foram e continuam sendo agentes ativos do desenvolvimento da civilização humana em todo mundo, e mesmo durante a escravidão, continuaram produzindo conhecimento. Elisa chamou atenção para fato da época da escravidão corresponder a cerca de 25 centímetros em uma linha de 4,5 metros de comprimento.

Dentre as informações dadas por Elisa, algumas são pouco conhecidas, como a criação da escrita ideográfica por povos do oeste da África (Adinkra) e as ligações da cultura africana com a Índia, China e Japão e Américas. A partir de crâneos encontrados em terras brasileiras, foi possível comprovar que pessoas com características africanas, aqui estiveram há 40 mil anos a.C., provando que povos da África já possuíam tecnologia avançada em navegação.

O debate sobre a Lei 10.639 – que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental e ensino médio – e os motivos pelos quais ela não é devidamente implantada, foi um dos pontos altos da aula.

Rubens ConfeteO historiador, jornalista, pesquisador e coordenador do Centro Cultural Pequena África, Rubens Confete, foi um dos palestrantes convidados. Ele relatou sobre suas experiências e falou sobre suas motivações para buscar conhecimento sobre sua ancestralidade e história como homem negro, “O preconceito racial que sofríamos, nos fez querer saber mais sobre nós mesmos”.

A cultura Africana é muito vasta e riquíssima, pode-se compreender melhor através dos livros abaixo.

  • A matriz africana no mundo Nascimento, Elisa Larkin
  • Cultura em movimento Nascimento, Elisa Larkin.
  • Guerreiras da Natureza- Nascimento, Elisa Larkin.
  • Afrocentricidade- Nascimento, Elisa Larkin.
  • O dom obá II d´áfrica príncipe do povo – Silva, Eduardo.
  • Teatro experimental do Negro – Testemunho.
  • Dramas para Negros e prólogos para Brancos- Nascimento, Abdias. (Os livros acima podem ser adquiridos na sede IPEAFRO mediante a doações)
  • Negerplastik (Escultura Negra), de Carl Einstein, 1915.

Links:

Octávio de Souza – Bolsista PIBEX PACC\UFRJ

Fotos Jussara Santos, quebradeira da 3a edição

5 comentários sobre “Antiguidade Africana e seu Legado no Brasil, pós aula”

  1. As aulas de Elisa Larkin sempre me emocionam, desde a primeira que assisti ainda em 2010, quando ainda não estava nas quebradas, eu participava do projeto Apalpe A Palavra da Periferia de Marcus Vinicius Faustini e tinha alguns colegas como a Marilene Gonçalves e o William Santiago que fizeram parte da 1a edição. Lembro que assisti essa aula no Salão Dourado, da UFRJ Praia Veemelha e no dia em que Mano Brown também estava presente junto com Ice Blue.
    Queria dizer que o atravessamento, inclusive conversando, ouvi da Jéssica sobre isso é uma coisa que nos une a todos as questões que envolvem o ser independente da cor que ele representa, ainda mais eu que no Brasil sou tido como Japa e pelos Japas não sou considerado japonês.
    Então a nossa empatia é pelas causas e sofrimentos e até os mais militantes negros deveriam entender, por exemplo os negros com brancos e vice-versa.

  2. Parabens a equipe das Quebradas ter permitido que o debate ultrapassase o tempo proposto,esse assunto que a Elisa Larkin e o bem humorado Rubens Confete nos troxe, mexe muito com todos nos,primcipalmente quem ja viveu na pele qualquer tipo de preconceito.Eles fortaleceram a vontade de lutar diariamente e sem descanco esse crime chamado preconceito.

  3. Negritude

    Eu sou negro
    Quero que meu tronco
    Seja seu corpo
    E minhas algemas e grilhões
    Sejam seu abraço.

    Eu sou negro
    E não quero que você
    Me venda
    Quero que você me entenda
    Quero que minha presença
    Seja o real navio negreiro
    Que me liberte do negro afro
    E me leve a um sentimento ladino
    Me leve ao encontro do negro latino
    Dentro do complexo quilombo-continente
    Que há em mim.

    Pois, então venha
    Que ainda sou negro
    E meu maior segredo
    É que nem abolições, nem cotas
    São remédios, nem apagadores
    Não desaparecem com as dores
    De um passado cruel.

    Por isso sou negro
    Porque não quero
    Que falsos sorrisos e hipócritas políticas
    Substitua chibatas
    Quero que o amor valha
    Para além do samba e da cocada
    Para muito além da feijoada.
    Pois minha alma é incolor
    E ao mesmo tempo tem todas as cores
    Possui todos os odores
    Que podes supor.

    E não há como ser negro
    Sem um pingo de maldade
    Sem um pingo de piedade
    Dentro do quengo.

    Pois venha
    E quando quiseres me seduzir
    Não serei mais um simples negro
    E sim a noite que se fez em homem
    Pra te possuir.

    Marcio Rufino

  4. Minhas expectativas para a aula eram muito baixas. Ao ler seu título no site e fazer uma leitura dinâmica do texto de apoio, tive impressão equivocada. Acreditava se tratar de uma aula cujo objetivo seria defender de modo panfletário a cultura (no sentido subjetivo do termo) africana. Todavia, ao desvelar a África pelo viés histórico, deu-se a oportunidade de conhecê-la e plena, afinal, a história tem o poder intrínseco de falar por si mesma. Ao demostrar ferramentas e escritas de 20 mil anos, ou elementos mitológicos e artísticos semelhantes em outros continentes, a força africana salta aos olhos tão inebriados de ocidentalismos. Pensar a África pela África – e não a África pela Europa – é mais do que acertar um posicionamento, é uma correção de equívocos seculares.
    Somos todos “africanos”, ainda mais nós os brasileiros. Inclusive, porque diferente de outros lugares no mundo, não foi em subúrbios blindados onde nossa ancestralidade se alojou, mas em nosso sangue. Mesmo que a política do Estado Brasileiro sempre tenha sido a da morte (social e física) desse protagonismo da negritude, em nossos modos “carioca” de estar na cidade, floresce a forte genética. Aprender sobre as origens dessa herança, é então mais do que resignificar fatos ou atitudes. É entender motivações, ações, conjunturas sócio políticas.. É também reter esperança. Reconciliar a sociedade em si e consigo mesmo.
    A aula trouxe também importantes questões, como a dos livros não impressos devido ao racismo (lembrar da “invisibilidade” e do “problema da representação” já apontada no estudo da professora Regina Dalcastagnè nos romances contemporâneos brasileiros). Outra interessante é perceber como as teorias antropológicas e sociológicas estão em constante ajuste frente às novas descobertas de vestígios das antigas civilizações. Em função destas, a história pode ser reinterpretada em função do pleno entendimento da dinâmica de ocupação territorial, e consequente influência dela no meio físico (características físicas) e cultural (mitologias e arquiteturas).
    A fala do Rubens Confete somou-se à riqueza da aula. Ouvir histórias do Rio de outrora com alguém que foi “sobrinho” de João da Baiana, ou primo de Heitor dos Prazeres é perceber, entre boas risadas, a gênese da cidade que se queria metrópole, mas dentro de estruturas sociais arcaicas. Por isso, entender a história onde tantos homens e mulheres negros têm suas histórias pessoais confundidas com as do próprio carnaval, lutas sociais no cais, guerra do Paraguai entre outros, é buscar entender com propriedade a cidade na qual hoje vivemos.

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