Arte, poesia e cultura negra no Território das Quebradas

O último Território do ano no CBAE tomou de assalto a Universidade das Quebradas e deu um banho de consciência, conhecimento e proatividade!

A quebradeira Karla Belfort iniciou o território da última terça-feira com muita atitude, falando tudo que pensa sobre identidade, ações afirmativas e governança. “Independencializar-se”, essa foi a palavra chave da apresentação, que tanto nos fez refletir sobre a luta consciente pela legitimidade da cultura negra em contraposição à categorização da mesma. “Acredito que o resgate do que é o seu lugar é se “independenciar” do outro” afirmou Karla. Para a quebradeira, a primeira medida para não ser mais rotulado, licenciado ou dirigido é “olhar para trás”, ouvir os antepassados, consumir sua história e cultura para assim entender o que é ter uma identidade negra. Karla, por fim, nos alerta: “Quando a gente sabe de onde veio, sabemos para onde a gente vai e para onde a gente não vai”.

Compartilhando da mesma ideia, a quebradeira Eliete Miranda assume o microfone para nos falar sobre o corpo como território dos saberes. Eliete nos fez ver o corpo como um território capaz de resgatar a cultura e movimentar a resistência negra. Para a quebradeira “corpo é vida, movimento e resistência”. Eliete acredita, assim como Karla, que falar em identidade é falar da busca dos nossos ancestrais e de nossas marcas em cada canto. E, pensando nisso, nos apresenta o Pássaro africano Sankofa, que nos ensina a filosofia de voltar ao passado para reconstruir o presente, perfeito símbolo de toda a ideia apresentada. Eliete nos mostrou a dança Afro como identidade que fala de dentro para fora.

Depois de tanto aprender sobre a cultura negra e identidade, o Território das Quebradas nos leva até a periferia de Niterói. As quebradeira Ana Paula da Silva e Letícia Freitas nos contam sobre o projeto Cine de Buteco, uma iniciativa exemplar de incentivo à cultura nas favelas. Ana Paula e Letícia se conheceram na faculdade de comunicação e entraram juntas nas Quebradas, onde viram a necessidade de criar um projeto. A ideia das amigas foi transformar o buteco, um espaço simples e comum de toda cidade, em um espaço de proliferação cultural. “O Cine de Buteco é um evento popular e cultural de construção de diálogos entre diversas artes”, nos explica Ana Paula. Aberto para todo o público, o evento acontece toda quinta-feira do mês e já está partindo para sua quinta edição. A programação conta com cineclube, que exibe produções fora do circuito comercial, sarau, com músicas de todos os estilos e uma feira de troca de livros. A ideia foi tão boa e bem sucedida que as quebradeiras já foram convidadas a realizar uma palestra na UERJ e outro evento na UFF. Ana Paula e Letícia nos contaram que pretendem crescer ainda mais, abrindo uma produtora social no campo da economia solidária. Essas meninas vão longe!

E o papo sobre cultura e cinema continuou na apresentação dos quebradeiros Leandro, Sergio e Emílio sobre a realização de um filme em 48h. Leandro nos explicou todo o processo de pré-produção desde o surgimento da ideia até as filmagens. Segundo ele, a equipe optou por uma narrativa simples que conseguisse contar uma história próxima da sua realidade. Para Leandro, a autonomia que o grupo tinha em contar a história na Cidade de Deus facilitou muito a produção desde o roteiro até a escolha de locações. O quebradeiro nos fez perceber que o cinema pode estar mais próximo do que imaginamos, basta notar boas histórias no nosso dia-a-dia.

Serginho nos falou sobre os desafios e estratégias encontradas na preparação de elenco. O quebradeiro teve que driblar os desafios de uma produção sem sálarios, altamente desgastante e com não-atores. O ponto positivo é que, como Serginho nos explicou, esses não-atores eram próximos da realidade dos personagens e por isso já estavam munidos do corpo e da linguagem necessária para dar realismo e naturalismo ao trabalho. O quebradeiro nos conta que em uma produção como essa é necessário trabalhar a improvisação baseada em palavras-chave do roteiro, que vão garantir que a história será contada. De maneira geral, Serginho explica que em uma preparação de elenco é necessário incentivar o ator a sair de sua zona de conforto, a inovar e se entregar por inteiro ao trabalho. “Coloque o coração de vocês para que nesse coração caiba o impossível” afirma.

Emílio finalizou a apresentação falando sobre as ambições inovadoras da pós-produção. O quebradeiro nos contou que o principal objetivo é conseguir trabalhar outras linguagens além da tradicional. “A ideia é unir a linguagem dos quadrinhos e o realismo” afirma. Além disso, Emílio revela ainda que o grupo está disponibilizando alguns frames do filme para serem trabalhados por diferentes artistas e que no fim estes trabalhos poderão ser utilizados no filme. Para Emílio esse é um “projeto pequeno, mas que tem pernas para se desenvolver”.

Fechando com chave de outro a tarde do último território das quebradas, o quebradeiro Feijah’N falou sobre a Slam Poetry, em ‘A poesia dos últimos tempos trafegando na cultura urbana’. Feijah´N nos explicou que a Slam Poetry começou na década de 80 e tem como princípio básico a oralidade e o improviso. A idéia é um combate, porém sem violência. Um combate com ritmo e sedução poética. O quebradeiro nos mostra que no Slam Poetry você precisa ser um artista completo, só que sem figurino e maquiagem. Feijah´N está na luta para fazer com que o Slam Poetry aconteça de fato no Brasil e participa do “Projeto Bandeirantes Já”, em que utiliza a técnica Slam para o desenvolvimento artístico de jovens, acreditando que a juventude fará o Slam Poetry ser reconhecido no país.

Logo, logo colocaremos as fotos do talentoso e sempre presente Mauricio Medeiros. Aguarde!

Texto: Camila Romana – bolsista PIBEX 2011

Foto: Mauricio Medeiros

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