Cristina Hare e a “Teoria da Conspiração”

Por Cristina Hare, retirado do livro “Considerações Finais”

Ele ligou. Tudo o que ele queria era chamá-la pra fazer algo juntos. Um lanche, um cinema sem pretensão e coisas pretensiosas, talvez até rolassem depois.

Ela, ao ver o número dele no visor do celular, ansiou por um convite, pra um lanche, um cinema sem pretensão e coisas pretensiosas, talvez até rolassem depois.

Ela atendeu com um “oi” animado.

Ele, tudo o que ele conseguiu, foi responder ao “oi” com a mesma animação e falar banalidades. Inventou uma desculpa por ter ligado e não a convidou pra coisa nenhuma.

Terminou a ligação com um “qualquer dia vamos marcar qualquer coisa” e desligou, para desespero de ambos.

Ela achou que tinha dado as dicas quando comentou que havia uma exposição assim-assim no MAM e que não tinha assistido alguns dos filmes indicados ao Oscar.

Ele achou que ela era intelectual demais, bonita demais, exigente demais, pra querer a companhia dele.

Ela, que já tinha vasculhado fotos dele no Face, onde encontrou uma dezena de meninas lindas, babando por ele, não se sentiu à altura. Provavelmente, ele ligou só por ligar, não tem interesse em mim. Foi assim que ela pensou.

Ele, achando que não tinha nenhuma chance, ligou a TV e foi assistir a um documentário sobre a Teoria da Conspiração.

Ela, rodou pelos canais e parou pra assistir o mesmo documentário.

Cada um no seu sofá,

cada um no seu cada um,

sem saber que a tal teoria não diz

que o tempo todo conspiramos contra nós mesmos.

19 comentários sobre “Cristina Hare e a “Teoria da Conspiração””

  1. Parabéns! Belo texto para reflexão. Sobretudo em tempos de ‘exaltação da cegueira’, exaltação da visão superficial: onde pouco notamos a nossa volta – ou como somos ‘pouco convidados’ a percebermos – o poder de nossas mãos, de nossos atos, atitudes e, na mesma proporção, a ausência destes…
    Já disse Confúcio:
    “Podes não mudar o vento, mas podes ajustar as velas para chegar onde quiseres.”

  2. Não sabemos mais como lidar com a arte do encontro. Porque parece que ele deixou de ser uma arte bonita, colorida e leve, para virar um desafio tenso e podador das coisas boas da vida…
    Parabéns Hare, adorei o choque de realidade!

  3. Mesmo a falta de coragem retratada assim nos faz crer que o universo conspirador está soprando ao nosso favor. Sempre. Parabéns querida. Beijos.
    Paulo Mileno

  4. Que texto, é tão convidativo e reflexivo em nossa vida cotidiana que não tem como não se apaixonar. Parabéns grande profissional e melhor ainda como amiga!

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