A filosofia da cena teatral: Heiner Müller e Hannah Arendt

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O teatro é uma entre as diversas manifestações artísticas que trabalha com e para as relações estabelecidas entre os homens. Ele possui a capacidade de apresentar novos tons interpretativos para situações cotidianas, para as quais os indivíduos encontram dificuldades de relacionamento. Para Heiner Müller, isto era uma precondição para a existência de um teatro: esboçar vagamente outra realidade para acrescentar alguma novidade para o espectador levar para casa depois do espetáculo.[1]

Em sua essência, o teatro contempla muitas condições e situações da vida humana na Terra: atores, espectadores, linguagem, um espaço físico, som, ar, conflitos humanos, objetos materiais e muito mais. O escritor de peças teatrais, para dar forma aos seus textos, pensa sobre uma ou algumas temáticas que provêm da vida e nela se plasmam. Logo após as metaforiza, através da li

nguagem criativa, e as apresenta ao público como criação artística. Na qualidade de quem se relaciona com a criação apresentada, o espectador a decodifica internamente e capta dela o que lhe suscitou interesse. O espectador sensibilizado pela temática exposta no espaço imaginário-cênico realiza um ciclo particular de apreensão da criação sob o ângulo de quem observa, como fazem os indivíduos em seus cotidianos para captar o que conseguem da realidade objetiva: estes são ao mesmo tempo sujeitos e objetos do mundo, percebem e são percebidos, criam e percebem criações na própria realidade objetiva que revela e é revelada por seres que se observam uns aos outros.[2]

Ao apresentar metáforas da experiência comum em cena, o teatro promove o confronto do indivíduo com a vontade e com o medo da transformação de questões da sua vida particular que, em sua última instância, é a morte. Através da comédia, o teatro deflagra este medo, e através da tragédia, o eleva — a fórmula do teatro é só nascimento e morte. O efeito do teatro, o seu impacto, é o medo da mudança porque a última mudança é a morte.[3] Ao admitir o seu fim fisiológico, metaforicamente internaliza que o hoje deixará de existir um dia, e assim, projeta-se no território da incerteza e aprende a relacionar-se com ela, já que não tem sequer controle sobre a sua chegada e saída da condição de humano que se encontra na Terra.

Visitar o pensamento de outros homens através da faculdade da imaginação, talvez seja um dos ensinamentos mais teatrais da filosofia. Sentar em uma plateia para ver a vida metaforizada na cena teatral, talvez seja um dos ensinamentos mais filosóficos do teatro.

 

De Ana Beatriz Pestana, com carinho, para os amigos Quebradeiros.

Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2014.


[1] MENDES, Anabela. De perfil para os bastidorestrês homens de teatro da RDA. Heiner Müller, Volker Braun, Jochen Berg. In: Teatruniversitário, nos 7/8. Coimbra, 1983, p. 33-44; no 10, Coimbra, 1984, p. 27-35, Coimbra, 1984, no 12, Coimbra, p. 41-46.

[2] ARENDT, Hannah. A vida do espírito: Volume I – Pensar, 1971. Tradução de João C. S. Duarte, Lisboa: Instituo Piaget, 1999.

[3] MÜLLER, Heiner; LOTRINGER, Sylvère. Muros, 1982. In: Heiner Müller – Teatro da Cornucópia. Traduções de Anabela Mendes e Rogério Vieira. Lisboa: Teatro da Cornucópia, 1984.

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