Mistura nordestina e indígena na aula da UQ

Na última terça-feira, a Casa do Estudante Universitário virou uma animada pista de forró! O professor Aderaldo Luciano, entre muitas atividades poeta e pesquisador, explorou a literatura de Cordel e colocou todos para dançar ao ritmo da música nordestina. Já a pensadora e pesquisadora Nietta Monte trouxe aos salões sua experiência nas Escolas Indígenas no Acre, abordando a educação e a diversidade cultural, linguística e social. Para encerrar o dia com chave-de-ouro, a Universidade das Quebradas recebeu ainda a visita do poeta, músico e letrista Chacal.

Aderaldo liderou a primeira parte do dia com o tema Cordel, forró, tradição e traição.O início da aula foi repleto de forró, que como ele mesmo disse, já o apresentava por si só. O professor, pioneiro no estudo do Cordel sob o ponto de vista literário, contou sua história e origens: “Falam que o Cordel nasceu em Portugal, mas ele é o único estilo literário originalmente brasileiro. Ele foi criado por Leandro Gomes de Barros”, disse. “Cordel não é folclore, já que ele é datado e tem autoria.”, completou.

Segundo Aderaldo, muitos ainda confudem cantoria e Cordel: “Mas foi o Cordel que influenciou a Cantoria, e não o contrário”. O que diferencia os dois, além do primeiro ser escrita e a segunda oral, é a estrutura do texto: “O autor não precisa rimar a última palavra do último verso da estrofe com o primeiro do seguinte.”. O professor mostrou as edições do Cordel lançadas pela Editora Luzeiro, especializada nesse tipo de literatura e da qual é coordenador, e afastou de vez do imaginário dos alunos a visão de que o Cordel vem sempre acompanhado da xilogravura: “Hoje em dia avançamos muito na parte gráfica também”. Para encerrar a aula, uma grande roda e mais música colocaram todos para dançar!

A segunda parte do dia teve a presença da pesquisadora e educadora Nietta. Com o tema Novos frutos das escolas na floresta – registros de práticas de formação, ela abordou a alfabetização e a educação dos índios brasileiros. “Esse é um depoimento de um período que ainda é presente, um processo em andamento na Amazônia brasileira”, afirmou. Segundo ela, essas escolas abordam e põe em discussão as fronteiras étnicas e culturais que aproximam e afastam todos os povos do mundo.

A professora falou sobre a quantidade de línguas que foram perdidas no tempo: “Antigamente eram cerca de 1200 línguas indígenas, hoje temos 180 registradas”. Com o projeto das Escolas da Floresta as línguas são preservadas: “Os próprios índios aprendem e depois dão aula à seus filhos, amigos e até aos pais. Lá eles tem flexibilidade de usar o português e a sua língua nativa, preservando e mantendo sua cultura”.

A surpresa do dia ficou por conta do poeta Chacal, renomado músico e letrista, veio conhecer o projeto das Quebradas e aproveitou para conversar com os alunos e dar uma palhinha de suas poesias:

“- Lúcifer! lúcifer! retornai de onde vos exilastes
diante da hipocrisia dos homens, vinde lá das
entranhas das trevas nos dar tua luz, encarnada luz,
único farol possível no meio desassossego. lúcifer!
lúcifer! lúcifer!

Acordo no meio da noite com o nome do príncipe
das trevas ecoando. vejo uma luz que vem como
uma golfada vermelha de dentro do tenebrião para
dar direção a minhas imagens pânicas. perdido no
lusco-fusco, essa íntima aurora boreal clareia meus
passos nesse labirinto. em toda baía, meu barco baila
bêbado e a grande lua com seus reflexos prismáticos
me desorienta dezoito pressentimentos. fujo de um,
atravessando o charco em desespero para naufragar
em outro, sibila tenebrosa, movediço pântano que me
quer devorar com suas garras crustáceas. aí de dentro
de mim, do fundo da noite eterna, um único grito
brota

Lúcifer!

Então uma onda de fogo e luz me aquece e ilumina e o
louco lago se rasga. do seu leito seco, nasce um olho
aceso que sabe onde pisar. sim, senhor das trevas,
agora acredito na força das imagens primordiais. sim,
pastor da noite, tenho fé nas vozes que emergem das
minhas vísceras. sim, mestre ctônico, agora olho as
serpentes, os cães, os gatos, com olhar numinoso
de quem vê os encaminhadores. e todos rendem
homenagem à luz que vem de onde não se vê, ao calor
que brota das águas geladas, e todos tecem loas ao
lendário andarilho vagabundo que crepita em toda
lenha e repercute carnaval

– Lúcifer, sebgor dos caminhos! iluminai nossas
veredas. desencadeai a ígnea tempestade para que o
mais humano entre os deuses, o mais santo entre os
mortais, possa de novo caminhar à luz do dia, com
seus chifres, cetro e rabo. lúcifer! lúcifer! imperai!”

1 comentário sobre “Mistura nordestina e indígena na aula da UQ”

  1. Aderaldo Luciano, revisor e cordenador editorial de alguns dos meus livretos de Cordel lançados pela editora Luzeiro em São Paulo, vem se consolidando como um dos mais “sério, confiável e completo pesquisador e defensor” do nosso Cordel. Os livretos do Cordel da Editora Luzeiro, a partir de 2010 foram mordenizados por esse mestre, apesar de opiniões contrárias as mudanças. O Cordel não é a roupagem própria de um tempo, estática, física, imutável. O Cordel é um gênero da literatura brasileira, tal o soneto e a trova. Parabéns Aderaldo.

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