Narrativas Árabes e As Mil e Uma Noites com Mamede Mustafa Jarouche

Embora seja um dos textos mais conhecidos da literatura universal, as origens do Livro das Mil e Uma Noites ainda são obscuras, bem como mal explicado o seu processo de constituição. Trata-se, efetivamente, de um livro que não aparece pronto e acabado, como fruto do esforço concentrado de um único indivíduo ou autor, mas sim como resultado do trabalho de várias mãos e cabeças, de escribas a tradutores, de letrados cultos a narradores populares. Indo além, trata-se de um autêntico modelo de “obra aberta”, que desde o século IX até pelo menos até o século XIX esteve em constante processo de reformulação. É esse o assunto que será discutido na palestra.

Professor Mamede Mustafa Jarouche é bacharel em Letras (Português & Árabe) pela Universidade de São Paulo (1988); doutor em Letras (1997) e Livre-Docente (2009) em Literatura Árabe pela mesma universidade. Atualmente é professor efetivo da Universidade de São Paulo, onde leciona desde 1992. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Literatura Árabe, atuando principalmente nos seguintes temas: orientalismo, narrativa árabe, cultura árabe, Oriente Médio e tradução do árabe.

12 comentários sobre “Narrativas Árabes e As Mil e Uma Noites com Mamede Mustafa Jarouche”

  1. Magnífica aula, esse professor sabe muito bem do que esta falando, adorei o ocorrido que desagua no enredo de Mil e uma Noites: dois reis cornos! Nada poderia ser melhor mote para se revelar tantas narrativas. Se a livre iniciativa entrar nos contos absurdos aí vai mais um… “contam que há muitos séculos navegava pela costa do norte um barco fantasma que aterrorizava os marinheiros e capitães. Cobria céu e mar numa névoa fria e espessa como cabeleira de mortos, e não se podia saber ao certo se era dia ou noite. Eram bem poucos os que se atreviam a embarcar por aqueles mares, mas os que o faziam e regressavam com vida contavam que dentre a névoa surgia a silhueta monstruosa de um galeão com canhões e sereias. Todos sabiam o que aconteceria a seguir, e tapavam os ouvidos para não enfrentar a terrivel ameaça, um sino vermelho que brilhava como fogo…- um espectro fazia soar o sino ao mesmo tempo que pronunciava o nome de um dos marinheiros do barco. O capitão tinha de entregá-lo, por mais que este chorasse e suplicasse, pois aquele barco fantasma, depois que carregava seus poroes de vitimas, partia rumo ao inferno. Um dia… ou uma noite… chegou um garoto… com uns sapatos com ferradura nas solas…como se fosse um burro. Trazia tatuado na íingua… a lista de suas façanhas e glorias… e assegurou a todos que poderia livra-los da ameaça… do barco fantasma… por tres barris… de ouro.Não é mais preciso apoderar-se do sino vermelho. E assim o fez. Apoderou-se do sino, mas converteu-se em um galeão fantasma. O pescoço do garoto esticou ate ficar da altura do mastro mais alto, e nele ficou pendurado o sino como chocalho de ovelha. A névoa se dissipou e o garoto-barco não voltou a ser visto por mais de cem anos, em noites de tempestade, quando seu navegar soa como cascos de burro e os marinheiros tremem porque sabem que tocara o sino e roubará suas almas”. Só não sei se Sherazade se salvaria mais uma noite com esse conto… (autor desconhecido)

  2. Aula maravilhosa que mostrou como é possível quebrar paradigmas de uma sociedade patriarcal através da arte, é a força feminina sendo destaque.

  3. As 1001 noites, mostrou que as mulheres já tinham força, há muito tempo….

    Adorei a empolgação, do Mamede lendo o conto, chorou de rir, bom momento da aula, boa noite cinderela das árabias, srrsrs

    Nuno DV

  4. Na nossa infância o que chega a nós das histórias das Mil e uma noites é apenas o mágico, o fantasioso. Definitivamente as Mil e uma Noites vai muito além de tapetes voadores, gênios escravos e grutas com tesouros escondidos. Erotismo, adultério, traições e assassinatos são ingredientes importantes de seu enredo. A aula de Mamede Mustafa Jarouche nos fez enxergar que se trata de um livro de fontes dispersas não só pelo oriente árabe como por parte da Europa, com certeza fruto da relação comercial entre as duas regiões em meados da Idade Moderna. Mas mesmo assim a trama de Sherazade não deixa de ser envolvente, atravessando séculos. E o erotismo explícito nas histórias não deixa de ser impactante e engraçado.

  5. A cultura árabe é uma cultura muito doce, muito humana, muito poética, apesar dos transtornos com os quais ela é identificada nos nossos dias, a influência da cultura árabe é evidente na obra de inúmeros escritores de origem sírio-libanesa no Brasil, mas também pode ser sentida na estrutura narrativa dos contos e romances de todo o Ocidente, que não seriam os mesmos sem a magnífica e eclética tradução do Mamede…Espetacular….!!

  6. NARRATIVAS

    A viagem das horas que passam,
    aguardando as histórias para contar antes de dormir.
    As mil e uma noites são o passo além do infinito,
    que transporta-nos ao imaginário ancestral,
    à terceira margem do rio, à antinomia na fala feminina
    que diz: “As mulheres mentem” – verdade ou mentira?
    Entenda, nossas histórias não são modernas,
    os homens é que são antigos.
    Cornos guerreiros confrontam cínicas conciliadoras.
    Acenda a lâmpada, liberte o gênio,
    corra os riscos, viva ou morra,
    nada mais importa quando a honra de um homem
    está posta nos outros!
    Busque a voz, só ela pode dar-te alento.

    DENISE LIMA

  7. A história triste da contadora de histórias sem pé nem cabeça e sem começo nem fim.

    Aspiro o ar fresco da manhã,
    o que me é agradável fazer todos os dias.
    Da janela, contemplo o sol que brilha, tanto, tanto…
    Há nuvens claras feito algodão doce no céu.
    Que encanto!

    De súbito, as crianças me chamam,
    me viro e vejo bagunça por todo o canto.
    Melhor assim, vê-las com saúde, farreando,
    e brinquedos pelo chão sempre espalhando.

    Querem histórias, brincadeiras,
    reviram-se em cambalhotas e danças,
    que faceiras!
    Ah, se o mundo fosse um mundo de crianças…
    Tudo seria esperança, expressão de renovações verdadeiras.

    Por um momento, penso:
    Hávia um rei em seu aposento
    que histórias sem pé nem cabeça,
    sem fim nem começo,
    gostava sempre de escutar.
    Dia após dia acorda e ainda sonolento,
    espera Sherazade Imaculada,
    seus contos sem ponto final, contar.

    Um dia porém, algo triste aconteceu:
    Finalizou-se as histórias no palácio!
    Ninguém mais as leu.
    Sherazade Imaculada,
    aquela que para sobreviver,
    prolongava sempre seus sonhos e contos, não eu!
    Cansada e farta de dias,
    fechou seus olhos e serena,
    abraçada ao seu velho
    e amigo livro, morreu.

    Rogéria Reis
    RJ, 20/04/2013

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