Pré-aula de Aderaldo Luciano

A entrada trinfal de Lampião na Catedral de Trier
(apontamentos sobre o cordel brasileiro)

Citações

 

“Em se tratando de literatura brasileira, o sujeito que achar que sabe alguma coisa, ou que acreditar na glória literária, é um puro e simples idiota, é um otário, como diriam os meus personagens, absolutamente desavisado. A realidade brasileira é muito superior ao que a arte brasileira já fez; nós ainda não temos uma literatura à altura da multiplicidade de realidades brasileiras e da grandiosidade dessas realidades. Por exemplo: nós não temos uma boa literatura sobre futebol, nós não temos uma boa literatura sobre favela, nós não temos uma boa literatura sobre samba, nós não temos uma boa literatura sobre êxodo rural; nós não temos obras tópicas, por exemplo, as coisas de Graciliano Ramos, Lima Barreto, e outros exemplos bons.” — João Antonio

 

O cordel, nasceu no final do séc. XIX, fruto da confluência para a cidade do Recife, de quatro poetas nascidos na Paraíba.  Silvino Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athaíde e Francisco das Chagas Batista formaram a Geração Princesa do cordel.  A reunião desses quatro cumpriu aquilo que Luís de Camões  prediz no seu clássico epopeico Os Lusíadas: quando o engenho e arte se encontram, boa coisa há de sair. E foi isso. A poesia rimada nordestina encontrava na capital pernambucana as, então, modernas máquinas de impressão tipográfica, os prelos europeus.  Daí para a composição dos folhetos e sua comercialização bastou o gênio de Leandro Gomes, o primeiro poeta-editor do Brasil. Escreveu, imprimiu e comercializou suas póprias obras. E viveu a vida exclusivamente dessa prática, passando para a história como Pai do Cordel brasileiro.

Durante muitos anos, vários pesquisadores procuraram o caminho mais fácil para explicar a gênese do cordel no Brasil. A maioria, até final da década de 80, atribuía ao cordel uma herança ibérica, por achar que no cordel brasileiro residiria elementos iguais e semelhantes ao produto português ou espanhol. Teimavam em ignorar a originalidade do nosso produto e necessitavam de um cordão umbilical transatlântico para corroborar a importância do cordel. Talvez nunca tenham tido em mão algum exemplar de folheto de cordel português para atestar a profunda dessemelhança. O cordel português reproduzia obras clássicas como as peças de Gil Vicente, canções de gesta , orações, vidas de santos e outros assuntos. Não havia a produção escrita própria e autônoma. Tampouco o seu veículo, livreto ou coisa parecida, folhas volantes, também não respeitavam a semelhança. Mas foi essa desinformação que passou para nós.

De outra forma, os mesmos pesquisadores fizeram-nos crer que o cordel como ele é seria tão somente a extensão escrita do universo oral dos cantadores e repentistas nordestinos. E a partir dessa outra contra-informação foram colocando no mesmo caldeirão as modalidades da cantoria nordestina, os próprios folhetos de cordel e todo e qualquer tipo de construção poética que trouxesse em sua forma elementos de rima e métrica supostamente oriundos do Nordeste ou que com eles dialogasse. Chegou-se ao cúmulo de indicar algumas obras de Castro Alves como sendo cordel, ou um proto cordel. O importante é que, levando em consideração esse aspecto, caíram no mesmo embornal  cocos, cirandas, maracatus, martelos, qualquer manifestação poética rural. E o cordel deixou de ser a produção escrita, a obra feita, o fruto do trabalho de um poeta de bancada, ou de gabinete, para ser um espectro oco no qual muito recheio acabou por nublar o recheio principal.

Essas duas gêneses citadas acima tornam-se contraditórias a quem, pelo mais leve debruço, queira problematizá-las.  Verifiquemos: se o nosso produto cordelístico fosse tão somente a versão escrita da oralidade dos cantadores, o de Portugal deveria ser o prolongamento da oralidade de trovadores, menestreis, jograis e segreis. E não o foi. Toda a produção oral desses, ou se perdeu, ou foi transformada nas tradicionais cantigas de amor, de escárnio ou de maldizer. Não nos consta que o cordel português veiculasse tais motivos. Como dissemos acima o conteúdo cordelístico português era de outra modalidade. Mais uma vez usamos a palavra infelizmente para lamentar que outros estudiosos e pesquisadores em vez de investigar apenas repassaram os esses equívocos conceituais.

*************************

Quero parodiar Wang Chong:

“O cordel deve ser fácil de compreender

e difícil de escrever

e não difícil de compreender

e fácil de escrever.”

 

Parodio, também, Jean Paulhan:

”O cordel também é uma linguagem e

(embora nem sempre seja visível)

uma festa para todo mundo,

para a qual todo o mundo é convidado.”

 

Finalizo a série de paródias

parodiando Marcel Arland:

“Imagino facilmente o cordel como uma Ordem.”

 

*******************************

Anotações para uma poética cordelial

1. Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.

2. Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.

3. Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.

4. O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

 

Anotações para uma poética cordelial II

1.
As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.

2.
Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.

3.
O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.

4.
Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

Anotações para uma poética cordelial III

1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.

2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.

3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.

4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

Anotações para uma poética cordelial IV

1.
O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, disse-me acreditar que o cordel pode ser encarado como gênero literário. E eu concordo, discordando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!

2.
Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.

3.
Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.

4.
Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

Anotações para uma poética cordelial V

1.
Há uma insistência entre os pesquisadores e alguns poetas em vincular a xilogravura ao cordel. Em certo momento da década de 50 do século passado, essas duas artes se encontraram, mas são autônomas. A xilogravura é só mais um processo ilustrativo do cordel. Não o representa, nem é uma sua extensão.

2.
O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga são best-sellers, sobre o peido, sobre a bunda, etc. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam? Faltarão poetas?

 

4 comentários sobre “Pré-aula de Aderaldo Luciano”

  1. eu GILBERTO BARAUNA DA SILVA, quero aqui agradecer ao cangaceiro da literatura de cordel, ADERALDO LUCIANO, eu fui um dos agraciados alunos deste grande professor da literatura de cordel no BRASIL, as aulas com ADERALDO me inspiraram a fazer cordel e no decorrer de dois anos já confecsionei quinze (15) cordeis, e quero continuar até completar cem (100) anos ou cem (100) cordeis, nos pilõnensses estamos esperando a sua visita novamente agora para receber o titulo de cidadão pilõnensse, até lá.

  2. Vou conhecer finalmente Aderaldo e aprender mais sobreo cordel que chegou a mim pela arte de Tomas Bakk e Edilmilson Santini.

    Meu amigo Tomas Bakk resgatou o cordel em Portugal e continua versando por lá. Edimilson pra nosso deleite ficou por aqui mais perto dos olhos e do coração.
    Que chegue logo a terça-feira!

  3. Vixe maria finalmente o cangaceiro da literatura volta à UQ. O caba é arretado. Levem seus comparsas para prestigiar o mestre do cordel literário. Contos os minutos. Bjos da poti que ama o caba doutor da filosofia do nordeste.

Deixe uma resposta