Território de Linguagem e Expressão 8 de outubro de 2013

Sandra Portugal
José Henrique de O. Santos

Você gosta de ler? Considera-se uma pessoa que lê?

Essas perguntas suscitam diferentes respostas e trazem novas questões. Por que ocupar-se da literatura? Por que escrever, por que ler livros?

Tzvetan Todorov, pensador búlgaro, com uma vida dedicada a estudos nas áreas de linguística e literatura, entre outras, aborda essas questões numa entrevista concedida a Bruno Garcia para a Revista de História:

Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesias. Todas as populações do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, e o que resta disso é sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita.

A literatura é um fenômeno social que evidencia e propicia a construção de identidades. É nesse sentido que se diz que a existência de uma língua se configura com o surgimento das suas primeiras manifestações literárias. Por outro lado, na modernidade, a consolidação da literatura de um povo é associada à afirmação da sua nacionalidade.

Pensar a literatura como patrimônio de todos não pode e não deve nos afastar da primeira perspectiva: a literatura como experiência de cada um, na constante busca de dar sentido ao que vê, sente e vive.

Para acender a chama que aquece e ilumina o debate, a discussão, Sandra e José Henrique recomendam a leitura de “O que pode a literatura?”, nas páginas de 73 a 82 do livro de Tzvetan Todorov “A literatura em perigo”, disponível neste link:

http://stoa.usp.br/brunafs/files/-1/16098/Todorov_A+literatura+em+perigo.pdf

Sugestões de leituras:

Sugestão de vídeo:

Foto de Tzvetan Todorov: Ji-Elle

12 comentários sobre “Território de Linguagem e Expressão 8 de outubro de 2013”

  1. Só esse café filosófico, em si, já foi uma aula para mim, e interessante eu ver, que o regime comunismo também não é santo, e pode ser muitas vezes, tão ou mais perverso, que a democracia ou o totalitarismo, como me mostrou a entrevista ao filósofo Todorov e também a Prof. Numa já havia me comentado isto, mas foi depois, esta semana de 11 de novembro, por conta do encontro no 2o encontro para a produção e ensaio da homenagem a Abdias do Nascimento ao qual estamos preparando.

  2. O motivo de ter escrito o poema já está explicito antes dele. Já o motivo de ter postado o dito cujo aqui está implícito no completo, conciso e brilhante comentário da Beá Meira sobre o vídeo do gigantesco pensador e historiador das idéias do mundo nos míseros últimos 500 anos de encontros e desencontros com a democracia.

    1. Wellington, querido, post do Território da Linguagem é o melhor lugar do site para soltar o verbo. Porque os olhos sagazes da Sandra Portugal estão sempre rastreando o que rola aqui!

  3. A experiência como quebradista calouro na Rocinha em 2012 foi marcada por muitas letras. Um conjunto delas se traduz no poema que aqui vos mostro.

    Foi uma tarefa proposta pela Grande Numa. Escrever um texto que relatasse alguns dos nossos momentos no projeto U.Q/UFRJ…Sempre que terminada a aula, descia o morro e me acomodava num barzinho, cerveja geladinha e copo ao lado, frenético movimento do povo em volta, e eu mergulhado em minhas elucubrações sobre as aulas, um sarau para produzir e sobre meu próximo livro: ABISSAIS ainda sem editora. E essa pausa tinha uma motivação bem objetiva: Esperar acabar o engarrafamento no circuito são Conrado/Barra/Jacarepaguá para um feliz e descansado retorno ao lar!

    E sem mais delongas, segue o poema:

    PALAVRA DE QUEBRADEIRO

    Venho aqui, Amigo e amiga
    do bar, do salão
    ou das Quebradas,

    anunciar,
    texto embriagado,
    pretenso candidato
    à poema de fato:

    Poesia de Esquina
    onde moro e vivo,
    não precisa,
    de canhão de luz ou palco.

    Pode ser,

    de letrinha rasteirinha
    ainda assim de salto alto,
    falando pouco de um quase tudo
    fazer do mundo seu arauto.
    Expandindo corpo em único ato.
    Abrindo veias, expondo valas.
    Escandindo líricos e épicos versos
    de todas as Rocinhas.

    Lavrando vaias às velhas crendices
    de loucos estados em desalinho
    multando o lixo no caminho.

    Mistura academia e pergaminho
    Com musica de lata na lata
    do rico Rio vizinho
    de colarinho.

    E o Rio abusado?
    Querendo ser
    capital da poesia!

    Precisa lembrar com respeito
    que “no lado de cima
    do estomago vazio”
    Segundo Dom Salgado Maranhão,
    jorra no peito do povo
    verdades e fantasias
    de todas as praças e etnias
    com eiras, beiras.
    Tristezas e alegrias.
    A massa forte e resistente
    de nossa sorte, vida e morte,
    Nordestina.

  4. A literatura..a leitura, me traz tantas coisas…são miniuniversos que alimentam a minha imaginação, me fazem evoluir…enxergar a mim mesma quando estou lendo algo…sentindo.
    Me dá prazer através de um imaginário que é infinito sem ser, desfaz preconceitos, simplesmente meu terceiro olho pra vida.

  5. A literatura e essa função humanizadora que nos faz mergulhar nas histórias que nos contam e que nos são contadas, que nos permite sentimentos, que nos coloca no lugar dos personagens….que viagem maravilhosa vamos que vamos quebradeiros 😉

  6. O bom da pré-aula é que a gente é acolhida. Obrigada pela força, Beá. Obrigada a todos pela oportunidade. Estou ansiosa. Vou amar. Façamos juntos a aula.

  7. A literatura pela literatura
    Ganhei minha primeira coleção de livros assim que completei 5 anos. Presente inesquecível deixado por meu pai em cima da minha cama, numa caixa de papelão sem papel de presente. Eram 8 livros. Eram 8 fábulas. Eram 8 mundos que se misturaram ao meu infantil particular. A sinergia experimentada ali foi o que deu início ao que eu chamo de amor á literatura por causa dela mesma. Juntamente com as fábulas comecei a ler contos populares e nessa dinâmica foi se enriquecendo minhas experiências onde cada simples brincadeira era incorporada por um universo fictício. Acredito piamente que foi ali que se iniciou meu grande interesse pelo humano.
    Quando já maior, em idade de “estudar Literatura” segundo os métodos convencionais bem elaborados pelos críticos e teóricos eu já havia lido uma imensidão de crônicas, romances, poesias e contos nacionais e estrangeiros. Entre ilustres escritores da literatura brasileira a escritores regionais e grandes poetas como o brilhante Godofredo Guedes. Que morava “logo ali, pertim de casa”, e que hoje tem suas obras eternizadas na voz de seu filho Beto Guedes.
    Em plenos anos 80, quando se multiplicavam os paradigmas críticos e não mais um critério único que fosse capaz de definir o que era ou não literário, eu por sorte ou por pura simplicidade, já havia aprendido com meu pai o amor “aos livros”, à literatura, sem ter passado pelos achismos que fundamentam o tal “mais importante”.
    Acredito no poder dessa ordem, esse amor, paixão e acesso à literatura por ela mesma como base fundamental pra que discutamos todas as críticas e análises como sendo elementos importantes. Porém, elementos. Pois a riqueza da diversidade humana só conhecemos de maneira implicativa na literatura por ela mesma.
    Vou amar essa aula, com certeza!

  8. Uma Necessidade Humana……….. a fala que expressa a vida…….. pela leitura as ações e reações se fazem presentes………. no mar de palavras, as ondas mansas e revoltas trazem as fundamentações históricas da humanidade…………… façamos juntos……….

  9. Partindo para mais uma viagem literária…
    Vou com certeza conferir as indicações.
    Descobrir novas idéias e novas percepções é natural diante de tanta informação positiva.
    Legado que não tem preço.
    Obrigado a todos pela oportunidade!

  10. Sandra que beleza de café filosófico, muito oportuno. Todorov nos fala sobre tudo que mais nos interessa neste momento: a crítica á democracia, a beleza que está no gesto cotidiano das relações humanas e finalmente no artista como pensador da cultura. Obrigado pela indicação.

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