Território das Quebradas – Palavra e imagens em gestos

Que território!

Realmente um dos territórios mais plurais que tivemos. Assuntos diversos, diferentes abordagens dos companheiros em um ambiente decorado com as produções culturais dos quebradeiros. Ao todo foram 12 quebradeiros do polo da Rocinha que contaram um pouquinho de suas histórias e vivências. Apresentados pela Numa e mediados pela mestra quebradeira Rute, o polo da Rocinha deu show!

1. Começamos com Aurélio Mesquita, trabalhador da Rocinha, nos trazendo logo de cara o problema de uma fiação da Light que passa na vila verde, trazendo perigo para seus moradores. Conta-nos também sobre o Projeto Via Sacra da Rocinha, que retrata a história de Jesus, no meio das casas, feito por um grupo de teatro com um viés não religioso. Porém, este ano, o tema foi a Guerra de Canudos. Ele nos fala que a ideia surgiu enquanto lia Os sertões. Aurélio opina também sobre a questão das UPPs e a relação de guerra que ainda existe na Rocinha, afirmando que a pacificação é uma grande mentira e que trocaram apenas a farda. Ele comentou que houve confusão com a UPP[1] quando foram apresentar o projeto. Cento e quatorze jovens se inscreveram para participar do projeto, e ao pedirem autorização para a realização houve discussão acerca da temática do projeto, que para os policiais relacionava-se à revolta com a UPP. Uma fala carregada de críticas sociais e uma apresentação com fotos dos ensaios e espetáculos nos trouxeram uma amostra do tipo de cultura que está sendo produzida na Rocinha.

2. Logo depois passamos para Bruno Lima, produtor cultural, ex-aluno da EAV (Escola de Artes Visuais do Parque Lage) e formado em história, que nos contou um pouco do seu projeto Mobilizando o território que busca a realização de ações estéticas. Contou-nos também sobre a criação da revista de modas para jovens na favela, Sou dessas!, cujo público-alvo são jovens de 14 a 18 anos. Nos informou que há cinco jovens trabalhando na equipe, com idades entre 15 e 17 anos. A revista tem uma tiragem bimestral, e recebeu 10 mil reais da Petrobras. Nos morros do Borel, Salgueiro e Formiga, onde a revista é vendida, conseguiram um grande público; e no lançamento, 400 pessoas compareceram e abriram a possibilidade para conseguir mais parcerias.

3. No terceiro território, ouvimos e nos surpreendemos com o trabalho de Ligia Gurgel. A quebradeira, que vem de Saquarema para a Rocinha, estabeleceu uma relação com o Nós do Morro, e criou a Casa do Nós, que já está na luta, realizando uma resistência a favor da defesa da cultura em Saquarema há oito anos! Com o projeto “tempo livre”, Ligia tem mobilizado a comunidade por meio de atividades culturais. A quebradeira deu um show de luta e resistência com o aproveitamento dos escassos espaços culturais na região, com atividades como Da ideia ao espetáculo que mobiliza na lona cultural Renato Aragão um público de 200 pessoas, lotando o local. São músicas, poesias, espetáculos infantis, como o especial Noel Rosa e o show das ondas, que atraem e divulgam a produção cultural realizada pelos seus projetos. Ela relatou também a dificuldade para manter o espaço funcionando, indicando problemas na administração e de cunho financeiro. Porém, com o quase fechamento das portas, receberam um novo espaço, onde têm realizado seus trabalhos.

4. A quarta apresentação foi de Mozileide Neri, que trabalha com o projeto Suportes da arte contemporânea. Ela apresenta seus trabalhos com nylon, e muitas, muitas linhas! Vimos a transformação que ela fez em guarda-chuvas, em que ela pintou com tinta acrílica e industrial e fez gravura na parte superior, e por dentro era possível ler poesias. Esse trabalho foi apresentado no Sarau da Rocinha. Depois, vimos seu trabalho em paredes, sobre caixa de papelão, tecidos, e até em tapumes de madeirite, nos quais experimentou vários tipos de tinta que “brigavam com o rosa”. Mostrou fotos de seus trabalhos em que insere outros elementos nas pinturas, como colagens, folha desidratada e xilogravura. Trabalha na desconstrução da matéria, e sua experiência desafia: “até que ponto o suporte suporta minhas ideias”. Finaliza mostrando seu trabalho com livros parafusados.

5. No penúltimo território da primeira mesa, o tema foi a moda das favelas. A quebradeira Pamela nos falou das influências de diversas culturas na moda. Podemos perceber como a cultura funk, a cultura pop e até mesmo a questão da sustentabilidade têm influenciado a forma como nos vestimos. Nas suas falas, a quebradeira citou uma variedade de coletivos da favela que trabalhavam com a temática da moda. Grupos que se formavam para pensar e fazer uma moda da favela. E uma das frases apresentadas nos slides, nos traz uma reflexão, com intuito de pensar este tema como algo que faz parte de tudo o que somos e vivemos: “Nada se impõe fora da moda. Tudo tem sua moda.”

6. Ao chegarmos à última apresentação desta primeira mesa, tivemos a oportunidade de presenciar uma produção audiovisual, da quebradeira Sandra Lima, da UQ Flamengo. Ela explica, antes de passar o vídeo, que sua história e suas práticas artísticas seriam mais bem-contadas se não fossem contadas por ela mesma. Esse foi um dos motivos apresentados pela quebradeira para se exibir em um vídeo, com uma atriz a representando. Mesclando passado e presente, o vídeo nos traz um show de imagem e som, além de um conteúdo rico sobre sua profissão e hobby de biógrafa. Alternando as cenas em que a pessoa entrevistada aparece; um momento como uma criança com seus pais e outro com uma senhora já idosa. Além de contar um pouco sobre si, Sandra Lima nos fez refletir sobre essa relação que existe entre passado e presente.

7. O primeiro quebradeiro da segunda mesa foi o Firmino, de fala articulada, mostrando seu trabalho e relacionando o lúdico com a memória. Trabalhou em uma brinquedoteca, realizando ações e pesquisas que valorizavam a infância, aliado a educadores da Rocinha. Contou-nos também um pouco sobre a história da Rocinha e como ele trabalhava essa memória e construção social e histórica com as crianças por meio de jogos e atividades lúdicas. Comentou sobre a matriz africana que está no coração das origens da Rocinha. Mostrou-nos fotos da antiga Rocinha do fim do século XIX, em torno dos anos 1880, e destacou que aquele local já era um ponto atrativo da cidade. Outra curiosidade foi o fato de Firmino comentar que o atual bairro do Leblon era o antigo Quilombo das Camélias (contradição interessante, por este bairro hoje ser um dos que têm o metro quadrado mais caro da América Latina, e onde ocorre uma exploração absurda do trabalho doméstico, muitas vezes realizado por negros e pobres). Descobrimos, por meio de Firmino, que na estrada Gávea as crianças faziam corridas de carrinho de rolimã e os jovens faziam corrida de baratinha. Ele mostrou-nos também uma foto na qual podia se ver a construção do túnel Zuzu Angel, na década de 1970. E todas essas ações articuladas com o livro Varal de lembranças. Vale a pena pesquisar!

8. A segunda quebradeira que saiu quebrando tudo foi a poderosa Francisca, mais conhecida como Chica da Rocinha! A companheira nos deu uma lição sobre militância. Há 44 anos morando na Rocinha, e a quase o mesmo tempo realizando lutas pela melhoria e garantia de direitos dos seus moradores, e engajada nas lutas sociais desde a chegada dos imigrantes nordestinos à favela da Rocinha. Trabalhou com formação cultural de crianças na catequese, foi da Aspa, e ainda teve tempo para ser escritora. Chica da Rocinha, em seu discurso inflamado e cheio de orgulho por ter lutado e por ainda estar lutando pela Rocinha, contou-nos sobre a diversidade de movimentos e as formas de atuação para a melhoria de vida da comunidade da Rocinha e da sociedade carioca como um todo. A fala de uma mulher guerreira e vitoriosa, mas que reconhece o valor da luta contínua.

9. Com o terceiro quebradeiro desta segunda mesa, falamos de sarau, poesia e crianças! Wellington, graduado em administração, professor de caratê e artista, realizou um sarau chamado Poesias de esquina, onde buscava incentivar não apenas a leitura poética, mas a produção de poesias por parte dos moradores da comunidade. Seus principais meios de divulgação eram os Fanzines e as redes sociais, porém, apesar do sucesso o movimento, acabou enfrentando muitos problemas. Um desses problemas citados pelo quebradeiro se referia ao fato da polícia que autorizava o evento em tal local, e os traficantes chegavam e rasgavam a autorização da polícia e mandavam eles “vazarem” de lá. Aos poucos foram sendo buscadas parcerias com ONGs, que começaram a ajudar na divulgação e em outros âmbitos do movimento. Mas o que mais marcou a fala do quebradeiro Wellington foi a demonstração de um grupo de crianças que criou seu próprio sarau. Esse tipo de atitude nos faz pensar sobre o poder de mobilização da sociedade que a liberdade de produzir e divulgar uma cultura pode ter.

10. Raull, o quarto quebradeiro, nos deu o depoimento acerca de sua militância no Complexo do Alemão. Seu discurso ficou em torno das ações que participa, da Juventude Militante e das Ferramentas Alternativas. A primeira, Juventude Militante, traz uma pauta de lutas com temas como a defesa dos direitos humanos, a educação e a cultura livre. Organizados no coletivo, o “Ocupa Alemão”, que discute cultura, política de seguranças nas favelas, educação e outros temas, eles atuam realizando ações de conscientização com a população. Raul nos contou também que o movimento não é segregacionista e busca parcerias com outros movimentos como o “Ocupa Borel”. Já as Ferramentas Alternativas procuram pensar em formas de divulgação e publicidade das atividades desenvolvidas por diversos meios de comunicação, como foto, raps e música em dispositivos móveis como tablets, celulares etc. O intuito é buscar parcerias para atingir todo o tipo de público na favela, na tentativa de difundir um pensamento crítico nesses cidadãos e fazê-los refletir sobre o que é a favela e o que podem fazer para melhorá-la. Outras formas utilizadas pelo grupo são o corpo e a ocupação de espaços públicos, com performances, flashmobs e atividades nas ruas. Um relato de luta e de tentativa de transformação social. Raull termina sua apresentação com a seguinte frase: “Formado pelo que aprendo nas práticas da realidade, é através de minhas vivências que escrevo minhas teorias.” (Raull Santiago).

11. A quinta quebradeira, Taiana Bastos, é percussionista do grupo Meninas do Nós. Sua declaração se inicia explicando um pouco de como surgiu este grupo. Explorando a grade do curso de teatro do Nós do Morro, havia uma das oficinas que fornecia aulas de percussão. Aos poucos, as meninas passaram a ser a maioria na aula, e formaram as Meninas do Nós. Mesclando música, teatro, dança e percussão, o grupo foi crescendo, fazendo parcerias, atuando em campanhas como a do câncer de mama e se apresentando em eventos culturais por toda a cidade, divulgando também a dança kuduro. Elas mostraram um vídeo no qual são entrevistadas e contam como o grupo surgiu, na comunidade do Vidigal. Elas contaram o estranhamento inicial da comunidade e da população com o estilo de dança que acompanhava o ritmo da percussão, o kuduro, mas que após algumas apresentações e a divulgação pela mídia de massa, a visão e a relação de desconfiança com a dança acabaram se transformando em curiosidade e, posteriormente, em admiração.

12. A sexta e última apresentação da segunda mesa ficou a cargo de Flávio Pé, que nos apresentou seu trabalho na Rocinha com hip-hop. Ele inicia sua fala com a frase de Chuck D.: “O hip-hop é a CNN dos guetos.” Deixando no ar está afirmação, o quebradeiro constrói seu discurso em torno de sua história como rapper. Sem nenhuma intenção política, ele conta que resolveu se reunir com um grupo de amigos na estrada Lagoa-Barra, em 1997, para cantar e dançar hip-hop. Porém, ao longo de sua vida, ele começou a perceber a importância do hip-hop no contexto social de denuncia e exposição de uma realidade que era vivida por aquelas pessoas. Um belo documentário, A palavra que me leva além, que apresenta a visão do hip-hop pela boca de famosos rappers como Marcelo D2, Aori, e Shawlin, traz uma discussão acerca do preconceito que existe com o hip-hop e da sua capacidade de denúncia social. O quebradeiro relata também sua parceria com a TV comunitária, TV Rocinha, onde apresentava programas sobre hip-hop com disputas entre rappers e interação com o público, que mandava sugestões de temas para as rimas. Uma história contada através da rima e da denúncia. O quebradeiro retoma a frase que iniciou seu discurso e explica que o poder do hip-hop é o poder de denunciar e noticiar as realidades daquele local marginalizado pela sociedade. Daí a comparação, “O hip-hop é a CNN dos guetos”.


[1] Em 2007, o então secretário de Segurança José Mariano Beltrame assinou a Resolução no 013. Essa Resolução dá aos policiais o poder de vetar qualquer evento social, cultural ou esportivo no estado do Rio de Janeiro. O problema ocorre quando o veto a eventos só acontece nas favelas onde as exigências por parte da polícia extrapolam as condições materiais dos organizadores. (Mc. Leonardo, 2012, Palestra na ECO, grifo nosso).

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