Sobre a Inveja, por Felipe Boaventura

A primeira cidade ficava de um lado do Rio, e a segunda cidade ficava do outro lado do Rio. Tudo corria como acontece aos dias, ora cansados, ora azuis. Até que certa feita, quando pela primeira vez uma pessoa que ficava na primeira cidade passava pela segunda, observou seus moradores pelo caminho e percebeu que eram negros e que traziam olhos castanhos, claros como o mel.

Ao voltar para sua cidade – a outra cidade, como pensavam  as pessoas com olhos claros em sua própria cidade – contou o fato aos seus vizinhos, e estes para os seus vizinhos e em pouco, todos sabiam da cidade dos olhos claros como o mel em pessoas negras do outro lado do Rio.

Os comentários deram lugar a anedotas. As anedotas deram lugar a insinuações. As insinuações transmutaram-se em discursos de rancor. E quando a inveja fez-se madura, não precisando ser amparada por relés epítetos entre moços ou velhos, o momento do conflito havia chegado.

Mataram-se com igual ódio e crueldade, entretanto a primeira cidade matou mais e venceu a segunda cidade, não poupando crianças, mulheres ou velhos. Voltaram jubilosos com seus pares de troféus, e sem perder tempo, trataram de aproveitar esse despojo. Porém foi quando colocaram no lugar de seus antigos olhos, os cobiçados olhos claros como mel, que a realidade dos seus atos ficou clarividente. Mas então já era tarde demais.


Felipe Boaventura é quebradeiro da 4a edição
Ilustração a partir de foto de  global360

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